Escorpiões brilham no escuro, mas o motivo não é o que se imaginava

20/02/2026 às 08:30

Se você apontar uma luz ultravioleta (UV) para um escorpião no meio da noite, ele vai acender com um brilho azul-esverdeado quase alienígena. Esse fenômeno fascina biólogos há décadas e, durante anos, os cientistas debateram o motivo por trás dessa característica curiosa.

Até bem pouco tempo, a teoria mais aceita era de que o brilho funcionava como um “alarme” de luminosidade. Mas uma pesquisa publicada nos últimos anos mostrou que o verdadeiro motivo pode ser muito mais vital: a própria sobrevivência contra ameaças invisíveis a olho nu.

O mistério do “sensor de luz gigante”

O brilho característico dos escorpiões acontece graças a uma estrutura chamada camada hialina, uma película extremamente fina e resistente que faz parte do exoesqueleto do aracnídeo. Quando essa camada recebe luz UV (mesmo a fraca luz refletida pela lua), compostos químicos presentes nela absorvem a radiação e a reemitem na forma de luz visível.

Durante anos, uma das hipóteses mais famosas era a pesquisadores como Carl Kloock. Segundo ele, como os escorpiões têm uma visão muito limitada, o corpo inteiro do animal funcionaria como um “sensor de luz gigante”.

A lógica era simples: se o escorpião “sentisse” que seu corpo estava brilhando, ele saberia que estava exposto à luz da lua e, consequentemente, vulnerável a predadores como corujas e roedores. O brilho seria um aviso para o animal correr para a sombra mais próxima.

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A reviravolta: uma armadura química

Embora a teoria do sensor de luz fizesse sentido, a ciência continuou investigando os compostos químicos exatos que causam essa fluorescência. E foi aí que o jogo virou.

Um estudo publicado no Journal of Natural Products, em 2020, focou em analisar o exoesqueleto de uma espécie específica, o Liocheles australasiae. Usando novos métodos de extração, pesquisadores da Universidade de Kyushu, no Japão, conseguiram isolar uma molécula fluorescente inédita: um tipo de éster de ftalato.

A grande descoberta não foi apenas a molécula em si, mas a sua função. Essa classe de compostos possui fortes propriedades antifúngicas e antiparasitárias.

Ou seja, a principal teoria agora é que o brilho azul-esverdeado é, na verdade, um “efeito colateral” de uma poderosa armadura química. O escorpião não brilha apenas para saber se está no claro ou no escuro; os compostos que causam a fluorescência estão lá, em primeiro lugar, para proteger o animal contra infecções por fungos e ataques de parasitas no ambiente hostil em que vivem.

A evolução, ao que tudo indica, deu aos escorpiões um escudo imunológico que, por acaso, tem a propriedade fascinante de brilhar sob a luz ultravioleta.

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